Mais que antes

Hoje reparei em algo que até então me passava despercebido

Você é, a cada dia que passa, mais bonita

Pensei em escrever que você está tão bonita quanto quando me apaixonei, mas não

Está mais

Isso é estranho em muitas partes

As pessoas se acostumam, se familiarizam

Principalmente com o desagradável, com o feio

Aceitar coisas que não nos agrada é um exercício praticado por milhões de pessoas ao redor do mundo todos os dias

Mas não é o meu exercício

É uma melhora constante

Incessante

Também percebi que tenho sorte no que importa

E que não importa não tê-la em coisas que não são importantes

(mas por via das dúvidas, confira nosso jogo na Mega Sena, vai que…)

Todos os dias percebo um detalhe diferente

Um milímetro a mais em um sorriso de canto de boca

Uma pintinha que não estava lá no dia anterior

Uma mexida na franja com a mão marcada

Bordões que só eu posso conhecer porque você só é você comigo

Hoje te olhei com olhar de bobo

E é claro que te irritei

Mas não tem problema

Era por isso que te olhava (que fique claro)

Porque reparei em algo que até então me passava despercebido

Que você é e sempre será mais que antes

Música: You’re a part of me
Artistas: Johnny Cash & June Carter Cash

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Buscapé

Buscapé

Busca o pé

Descalço

Embaixo das cobertas

Trança

Trança as pernas

Abraça ou “aperna”

Sobe e deita metade sobre mim

Respira, entope, busca o frasco

Inspira, desentope

Sorri e dorme

Diz coisas que não fala acordada

Concorda com outras só pelo sono

Buscapé

Busca a mim

Embaixo das cobertas

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Idiossincrasia

O puxar de leve no lado esquerdo da boca que se transforma em sorriso

O enrolar da língua ao pronunciar os erres mudos

A maneira narcisista com que ajeita os seios

O fechar dos olhos nas cenas de terror

O ódio ao som dos talheres na porcelana

Ou mesmo dos barulhos guturais do mastigar do pão com manteiga

 

A busca pelo meu ombro quando ébria

O afastar e aproximar infinito, na cama

Os milésimos de segundo entre o sorriso e o choro

A infidelidade culinária

A ambidestria involuntária

O paladar apurado, de tecnologia reversa, esclarecedor

 

Picos de humor

 

De amor

 

O gosto pela violência televisionada

A empatia comedida

A fome desmedida

E o sono

 

O sono

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Mais Leve que o Ar

Eu não queria que fosse hoje. Tá sol, e eu não quero que isso aconteça em um dia de sol. É feliz demais, quente demais e as pessoas usam camiseta regata. Mas não posso mais adiar.

Não queria que essa data ficasse marcada com parentes de bermuda e camiseta regata se aglomerando para descobrir o que foi que aconteceu, qual o motivo disso tudo.

Não existe um motivo, são vários. E pensando bem, um, com certeza é o calor.

O calor é algo detestável para mim. Não confio e nunca consegui confiar em quem se sente à vontade em uma temperatura maior que vinte graus Celsius. É sério.

Pense comigo: Se faz frio, o que é que você faz?

Coloca uma blusa, um agasalho, um cachecol (acho lindo). O frio é melhor pra tudo; Para dormir, para trabalhar, para tomar um banho quentinho…

Alguns vão dizer que é horrível para se levantar da cama de manhãzinha.

Mas levantar cedo é ruim de qualquer jeito.

Mas e se faz calor?

Somos proibidas por lei de andar pelados por aí. É nesses dias que queria ser homem, pra poder andar sem camisa, sem se preocupar com nada. E a não ser que tenhamos um ar condicionado em cada ambiente do nosso dia a dia, tudo se torna menos suportável no calor.

Não odeio pessoas, não tenho um namorado porque não quero. Sou bonita, me dizem isso sempre. E eu não gosto de elogios.

É complicado dizer essas coisas em uma hora como essa. No final.

No final, fiquei de escolher uma entre três opções: Pílulas, monóxido de carbono ou eletricidade. Procurei em uns fóruns, os mesmos que aquele menino de Porto Alegre, o Vinícius*, procurou. Ele só tinha dezesseis anos.

Acho que a decisão veio desde que materializei meu desgosto na minha própria aparência. Quando raspei o cabelo que ia até a cintura, quando emagreci quinze quilos. Quando meu quarto se tornou um depósito de papéis com secreções nasais e sangue.

Eu gostei uma vez de um menino, eu era a mais calada da classe e ele o mais bagunceiro. Todos gostavam dele, mesmo os professores não continham o riso quando ele fazia seus gracejos. Ele nunca soube. Ele nunca vai saber.

Dos três. decidi o indolor. O mais covarde. Dá pra pesquisar sobre tudo na internet. Sei que o monóxido de carbono é incolor e inodoro. E extremamente tóxico. Ele afeta as hemoglobinas do sangue destruindo o oxigênio. No processo, a única coisa que a pessoa sente é sono e depois mais nada.

Amo meus pais e os poucos amigos que tenho. A culpa não é de vocês, não é de ninguém. Finalmente posso ser eu mesma.

Quando abrirem a garagem só restará um pouco de fumaça e o meu corpo entregue aos vermes.

Adeus.

*O vídeo contém uma gravação de Yoñlu, nome artístico de Vinícius Gageiro Marques, que cometeu suicídio em julho de 2006, aos dezesseis anos de idade.

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Oitavo Andar

Sempre que as conversas de madrugada se estendem, o que fica pra trás é o tempo mais bem aproveitado do todos. Na madrugada é que falamos coisas que não podem ser ditas sob a luz do sol. Enquanto o mundo dorme, acertamos os ponteiros da vida usando palavras como ferramentas de uma carpintaria mental.

Mentiras que serram, verdades que colam, pregos que perfuram camadas de tábuas com odores amadeirados e cheios de dúvidas. Por fim, lixas que deixam as superfícies dos assuntos inacabados um pouco mais apresentáveis, mas nunca, nunca com o verniz da sinceridade absoluta.

O sono vai embora. Troca de lugar com o vazio do desligar do telefone. E o teto do quarto parece estar a um centímetro do rosto. E mesmo com as janelas abertas do oitavo andar, parece que a manhã nunca vai chegar.

Fechando as janelas, os pássaros começam a cantar e o sol aparece, tímido e pronto mais uma vez para silenciar todas as coisas que não podem ser ditas em sua presença.

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Quem quer a verdade é um idiota?

Seja sincero, conte as coisas que aconteceram do jeito que elas aconteceram.

O problema em querer saber a verdade é que às vezes você consegue. A mentira é amena, acalenta, acaricia os egos, faz com que o problema pareça dos outros. A mentira não suga a alma para o inferno, ela eleva o espírito para um lugar distante, com um céu azul e conchinhas na areia. Mas sem mar.

Mentiras são contadas desde a infância, vezes por preguiça da explicação total, vezes por medo da quebra da inocência. Sem saber que a mentira acaricia, mas quebra tudo o que é puro no ser humano. E mesmo assim é mais gentil que a verdade.

Um bom velhinho vestido de vermelho com um saco de presentes nas costas é muito mais mágico do que o tio manco e bêbado metido em uma roupa ridícula de cetim escarlate. A mentira da fada do dente, do coelhinho da páscoa, de que se você comer uma semente de laranja, vai crescer uma árvore na sua barriga.

Aí, meu amigo, eu te digo algumas verdades: Deixe a mamãe arrancar o seu dente à sangue frio em troca de dinheiro. Jesus não existe, nunca existiu e a sua ressurreição não tem nada a ver com um velho de barbas brancas entregando presentes que EU comprei pra você, ou com ovos de chocolate de alguns gramas que custam o preço de quilos de barras igualmente deliciosas.

Ah, e você não pode comer um caroço de fruta porque sua traqueia é pequena demais e você pode morrer asfixiado.

Por esse ponto de vista a mentira não parece tão horrível ao ponte de a chamarmos de filha do diabo. Aliás, outra invenção do cristianismo para manter a humanindade na linha.

Não minta, senão você vai para o inferno, lugar onde Satanás pune os maus e mentirosos. Mas se ele pune os maus e mentirosos, ele não seria bom?

Filosofia de boteco à parte, a mentira é uma necessidade básica do ser humano.

Não acredita? Alguns exemplos de falácias e suas traduções entre parênteses:

-Claro que você não está gorda, querida!

(Tá gorda sim, não tá vendo que a calça não entra?)

-Eu que te amo.

(Se eu disser isso, será que ele cala a boca?)

-Seu pau é o maior pau que eu já vi.

(Tá na média, beeeeem na média, tá, abaixo da média)

-Amiga, como você está linda!

(Sério que você fez essa merda no cabelo?)

-Hum, esta comida está muito boa mesmo, hein?

(Deveria ter passado no Mc Donald’s, antes de vir comer essa bosta)

-Deixe seu telefone que entraremos em contato…

(Suma daqui e não apareça mais, nossa empresa não contrata pessoas negras, pobres, homossexuais, gordas, feias ou bonitas demais)

A verdade pode vir em diversas embalagens diferentes. Você pode ouvir de um médico que tem câncer, ou a confissão da mulher amada de que ela o traiu com o seu melhor amigo. E é nesse momento que você mais gostaria que tudo isso fosse mentira.

A mentira ainda é tão abominável?

Sim. É. E se eu tenho que lhe explicar o motivo, então você precisa rever alguns conceitos.

Não existe verdade que não possa ser suportada.

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A Menina do Nariz Arrebitado

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Inconstante e decidida, decide coisas que não sabe e sabe coisas que ninguém mais sabe. Sobre ela, sobre mim, sobre os outros. Tem cheiro de leite e baunilha, e gosto de café forte. Agora, depois de algum tempo, ela sente mais odores e gostos, porque deixou de lado um dos seus modos mais constantes. Isso é bom porque pode saborear, como eu saboreio, todas as coisas que faz. Temos tempo contado, que se multiplica e se encaixa mesmo quando já acabou. Diz que não quer falar sobre o assunto. E sorri. E faz manha.

Já disse que é manhosa? Acho que sim, tenho certeza que sim.

Mas eu gosto.

Gosto de fazer suas vontades. De misturar sua água – meio fria/meio gelada – no meio da noite. De ter a mão o cloridrato de nafazolina na hora certa.

Faz um tempo que as coisas mudaram, e ainda estão mudando, só pra melhor. Em todos os aspectos. E tudo por causa dela. Tudo por escolhas que ela fez. A melhor namorada do mundo. A melhor companheira que eu poderia ter. A minha mulher, minha amiga.

Jaqueline.

P.S. Nós gostamos muito de passear.

P.S. 2 Estava escutando um podcast sobre músicas dos anos 90 e sei que você gosta dessa, então vai um videozinho pra você

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Só um pouco

Gosto do seu sorriso pela metade

De te estragar com mimos

Gosto de quando respira perto do meu nariz

Mesmo quando o seu nariz não respira direito

Gosto do cheiro das tuas mãos

Que muda, vezes pitanga, vezes baunilha

E de ser suas mãos quando as costas precisam de creme

E dos pés

Gosto de te ver beber

mais do que beber

E de te ver feliz

quatro copos depois do primeiro

Gosto das pintas que tem

e das que não tem mais

e das suas marcas

todas elas

Gosto do que faz com as mãos

tudo o que faz com elas

Gosto do que vejo quando acordo

e do que vejo antes de dormir

Gosto de saber que te paraliso com um só dedo

E você,

mesmo sabendo disso

não para

Gosto das tuas manhas

gosto da sua mandíbula

Gosto do gosto da sua saliva

e das suas veias

Gosto até dos seus erros

do seu jeito de negar

do desespero

e da cara de pau

Gosto de você, branquinha.

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Feliz dia dos namorados…

Disse o homem da TV. Disse a namorada que espera o ano todo para ganhar a caixa de bombons que, diz ela, que a deixaria gorda nos outros 364 dias do ano (com exceção, talvez, da Páscoa). Disse o namorado que nunca deixou de lado o futebol de quarta-feira (e olha que esse ano o dia caiu exatamente em uma quarta-feira) pra buscar a namorada no trabalho, ou pra dizer coisas um pouquinho mais bonitas em um dia qualquer.

Feliz dia dos namorados para os casais que agem de forma robótica, que brigam o ano todo, magoam, mentem e não se importam nem um pouco com a mordacidade, mas que no dia 12 de junho estão lá: ele, com um carinho suspeito e exacerbado; ela, com uma lingerie nova e um gel à base de água.

Um grande e feliz dia dos namorados para os casais que lotam os motéis e que no dia seguinte se tratam com tanto desrespeito que até parece uma cena do Casos de Família.

Mês de festa junina e de namorados, esse junho. E de homens e mulheres que reclamam por não ter alguém para ir ao McDonald’s no dia 12. Mas que quando têm, mentem, traem e minam o relacionamento com um monte de merda e de egoísmo.

Feliz dia dos namorados pra você, mulher, que reclama da solidão mas adora ter por perto aquele “amigo-enche-ego”, que está disposto sempre a ser seu ombro pra chorar e dividir um pote de sorvete (que ele vai pagar) no final do dia doze de junho.

E pra você, homem, que pensa que sua namorada é uma santa e não tem vontade própria. Sem imaginar que ela poderia ser muito mais interessante se lhe falasse a verdade.

Cuide da pessoa que você chama de namorado. Pergunte como foi seu dia, se ela precisa de algo. Demonstre com muitos gestos e poucas palavras que você é presente e que está ali porque quer.

Dê carinho, escreva um bilhete. Pode ser com coisas banais, coisas do dia a dia de vocês dois. Seja verdadeiro, por mais que doa. E só fique com alguém porque gosta dessa pessoa. Não tá feliz, sai fora. Se o outro não fizer a mínima questão de ter você por perto, é um favor que você faz para ambos.

Namorar não é algo fácil, é um exercício diário de carinho, compreensão e cumplicidade.

Feliz dia dos namorados…

pra quem não sabe namorar.

Eu sou feliz todos os dias, obrigado.

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João e Maria

Não é masoquismo se você não sente prazer só com aquilo. Eu gosto dela, gosto do jeito que ela vê o mundo. De uma maneira em que tudo funciona perfeitamente dentro da sua linda cabeça. As coisas são simples em seu modo de ver. Para quem acompanha de fora pode parecer loucura, mas não para quem acompanha 24/7. E não é psicologia reversa, não é dizer sim quando quer dizer não. É muito mais complexo que isso, e mesmo que eu quisesse, mesmo que me esforçasse, não sei se conseguiria explicar.

Vou dar um exemplo:

 João e Maria se veem sempre, quase todos os dias. João é cético, é duro e avesso às intimidades. Maria é passional. Dramática. Faz de uma dor de dente uma neurocirurgia.

 Mas os dois se gostam.

 Se gostam tanto que João ri da dramaticidade de Maria e ela acha beleza na rispidez de João. Mas tudo tem um limite. Um dia João decide que não quer mais ver Maria durante a semana. Ponto final.

 Mesmo assim, Maria ainda tenta usar de seus artifícios para vê-lo. Inútil. Estava decidido.

 Não que João não gostasse mais da companhia de Maria, mas queria sentir algo que ela não o permitia sentir. Por presença constante, por gostar demais dele, que seja.

 João queria sentir saudades.

E a saudade nesse meio é crucial. Principalmente se você respira a outra pessoa. Dói, mas a recompensa é maior.

João e Maria dão certo porque são iguais e ao mesmo tempo infinitamente diferentes.

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